Neste momento estou sentada no chão do roupeiro do Leo. É terça-feira, por volta das 11 da manhã, e trago vestida uma t-shirt desbotada da faculdade que cheira vagamente a leite azedo e a desespero. Tenho um café gelado ao meu lado que estava quente há três horas. Era suposto estar a organizar a roupa de inverno, mas, em vez disso, estou a olhar para uma caixa de cartão com a etiqueta "Leo 0-6M" e a segurar num par imaculado de sapatinhos Oxford minúsculos em pele. A etiqueta ainda lá está, literalmente. Comprei isto por uma quantia absurda de dinheiro, e ele nem sequer os calçou uma única vez.
Olho para estas solinhas imaculadas e penso imediatamente nas aulas de Inglês do 11.º ano do Sr. Harrison. Ele escreveu aquela famosa história de seis palavras no quadro, aquela que toda a gente atribui ao Ernest Hemingway. Sabem qual é. Vende-se: sapatos de bebé, nunca usados.
Ficávamos todos sentados naquelas carteiras de madeira incrivelmente desconfortáveis a suspirar de tão trágico que aquilo era. A implicação! A dor! O berço vazio!
Oh meu Deus. Que treta.
Quer dizer, sim, claro que a perda de um bebé é uma coisa real e devastadora, mas se olharem para qualquer grupo local de pais ou mercado online de artigos para bebés neste momento, vão ver centenas de anúncios de sapatos imaculados e nunca usados. E em 99 por cento dos casos, a história por trás não é um romance do Hemingway. É apenas uma mãe profundamente irritada e farta de olhar para um par de botas em miniatura que o seu filho se recusou violentamente a calçar naqueles pezinhos gordinhos.
A matemática ridícula dos tamanhos e das estações
Deixem-me que vos explique como é que se acaba com um roupeiro cheio de sapatos de bebé por usar. Uma pessoa recebe estes sapatos no baby shower. Imaginemos que a festa é em maio e o bebé nasce em julho. A tia-avó Linda compra-vos umas botas de inverno tamanho 18 porque presume que o bebé vai calçar o 18 em janeiro. São umas botas lindas. Forradas a pelo. Com umas pequenas fivelas em pele sintética. Pomos as botas numa prateleira do quarto do bebé e ficamos a admirá-las durante meses.
Depois chega a dezembro. O pé do vosso filho aumentou inexplicavelmente para o tamanho 20. As botas já não servem. Ainda tentamos enfiar lá o pé na mesma porque a tia Linda vem cá a casa passar o Natal, mas o pé do bebé tem a forma de um queijo e a bota não cede. Uma pessoa desiste. As botas voltam para a caixa.
Ou pior, compramos aquelas sandálias minúsculas de verão para umas férias em família na praia, mas o bebé decide dar o maior pulo de crescimento na exata terça-feira antes de irmos embora. Juro que os pés deles crescem de um dia para o outro. É do género, piscamos os olhos e os ténis de lona que comprámos por quarenta euros de repente não servem para nada. Então ficam esquecidos numa caixa na garagem até os vendermos em pânico por cinco euros a uma desconhecida qualquer chamada Brenda na internet.
E nem me falem de sapatos de salto alto em miniatura para bebés, senão perco completamente a cabeça.
O meu médico suspirou para mim
Há também uma razão médica para os meus filhos nunca terem usado metade dos sapatos que lhes comprámos. Eu não sabia disto com a Maya. Era mãe de primeira viagem e achava que ela precisava de estar sempre cheia de acessórios.
Estávamos na consulta de rotina dos nove meses e eu tinha-lhe enfiado nos pés uns sapatinhos Mary Jane incrivelmente rígidos. O Dr. Evans entrou no consultório. Ele tem sempre um ar de quem precisa de uma sesta e de uma bebida forte. Olhou uma vez para os pés da Maya, deu um suspiro pesado e disse-me para lhos tirar.
Explicou-me basicamente que os bebés não devem de todo usar sapatos duros. Disse que aprendem a andar agarrando-se ao chão com os próprios dedos dos pés, tipo macaquinhos, calculo eu? Resmungou qualquer coisa sobre propriocetividade e como o andar descalço ajuda no equilíbrio e no desenvolvimento do arco do pé, e que as solas duras só prejudicam a sua postura natural. Disse-me que eles só precisam mesmo de sapatos para aquecerem os pés até estarem a andar com confiança na rua, num passeio quente ou em gravilha.
Por isso, tirei-lhe os sapatos rígidos e a Maya agarrou logo num para tentar comê-lo. Típico.
Os únicos que ficavam realmente no sítio
Acabam sempre, no entanto, por precisar de alguma coisa nos pés quando os arrastamos para fora de casa. Não se pode ter simplesmente um bebé descalço no meio do supermercado em novembro.

A minha verdadeira salvação quando o Leo se começou a pôr de pé agarrado aos móveis foram estes Ténis de Bebé Antiderrapantes de Sola Macia Primeiros Passos. Fui mesmo eu que os comprei depois de aprender a lição com os sapatos rígidos. Temos chão de madeira em casa, que parece uma verdadeira pista de gelo, e ele escorregava por todo o lado.
Comprei os castanhos. Parecem uns sapatos de vela de adulto a sério, o que para mim é hilariante, mas a sola é totalmente macia e maleável. O Leo calçou-os no casamento ao ar livre da minha irmã. Tinha 10 meses e andava a gatinhar pela relva húmida, a erguer-se agarrado àquelas cadeiras desdobráveis de madeira, a ser uma autêntica ameaça no geral. E os sapatos nunca lhe saíram dos pés. Principalmente porque os atacadores elásticos funcionam mesmo, mas também porque não o magoavam. Não passou o copo-d'água todo a tentar arrancar agressivamente os sapatos dos pés.
Enfim, o que interessa é que, se vão comprar sapatos de bebé, certifiquem-se de que conseguem literalmente dobrá-los ao meio com uma só mão.
Vestir uma criança pequena é um desporto radical
Já que estamos a falar de coisas que compramos para os nossos filhos que nos causam um imenso desgaste físico, tenho de falar das camisolas. Tinha toda esta visão dos meus filhos a parecerem autênticos modelitos de catálogo.
Comprei a Camisola de Bebé em Algodão Orgânico com Gola Alta para o Leo. A sério, o tecido é maravilhoso. É de algodão orgânico, é supermacio e a cor azul-índigo é deslumbrante. Mas os meus filhos têm umas cabeças invulgarmente grandes. Tipo, cabeções no percentil 99.
Passar uma gola alta pela cabeça gigante de um miúdo de um ano a gritar enquanto arqueia as costas como um gato furioso é uma daquelas experiências que eu não desejaria ao meu pior inimigo. Suei definitivamente ao ponto de anular o desodorizante a tentar vesti-la. Assim que a cabeça dele lá passou, ficou adorável, e a elasticidade safou-nos seriamente, mas valha-me Deus, o que eu penei até lá chegar.
Se estão neste momento nas trincheiras a tentar perceber o que é que serve realmente ao vosso bebé de proporções esquisitas sem causar uma crise de choro, talvez queiram dar uma vista de olhos na coleção de roupa de bebé orgânica da Kianao, onde encontram coisas que não exigem um diploma de wrestling na hora de vestir.
A vida de pé descalço no chão
Mas voltemos aos pés. A cena de andar descalço é um verdadeiro estilo de vida no primeiro ano. Passámos tanto tempo sentados no tapete da sala apenas a olhar para o teto.

Quem me dera ter tido o Ginásio de Madeira para Bebé quando a Maya era pequenina. Em vez disso, tinha aquela monstruosidade ofuscante de plástico fluorescente que alguém me ofereceu. Tocava uma musiquinha carnavalesca, genérica e frenética que ainda hoje assombra os meus pesadelos. Cada vez que ela dava um pontapé naquilo, a coisa começava a gritar uns barulhos eletrónicos na nossa direção.
Este em madeira, com as folhinhas e a lua é tão... silencioso. Basta deitá-los por baixo, com os pezinhos nus a dar pontapés no ar e a bater nas continhas de madeira, enquanto nos sentamos no sofá a beber de um trago um café já morno. Sem luzes a piscar. Sem música sintética. Apenas um bebé a agarrar os dedinhos dos pés e a olhar para um bocado de madeira bonita. O paraíso. O meu marido, Dave, passava a vida a esconder a versão de plástico atrás do sofá, mas provavelmente não se importaria de deixar a de madeira à vista.
A vantagem da segunda mão
Por isso, da próxima vez que estiverem a fazer scroll no Facebook Marketplace e virem um anúncio de sapatinhos de bebé novinhos em folha, não pensem no Hemingway. Não fiquem tristes.
Pensem nalguma mãe exausta que finalmente desistiu de tentar enfiar uma bota de pelinho no pé de um bebé aos gritos. Pensem no facto de ela os estar provavelmente a vender para poder comprar um café e uns minutinhos de paz.
E, sinceramente? Comprar-lhe esses sapatos sem uso é uma enorme vitória. A indústria do calçado para bebés consome imensos materiais para fazer coisas que uma criança usa exatamente durante três semanas. Comprá-los em segunda mão a um qualquer grupo local ajuda a mantê-los fora dos aterros sanitários ao mesmo tempo que vos poupa vinte euros. Não é, de todo, uma tragédia. É apenas parentalidade inteligente.
Preparados para parar de desperdiçar dinheiro em calçado rígido que o vosso filho vai rejeitar com todas as suas forças? Espreitem a coleção de calçado de sola macia da Kianao antes de comprarem mais um par inútil de botinhas de bebé.
Perguntas que me costumam fazer na fila do supermercado
Os bebés precisam mesmo de sapatos antes de saberem andar?
Não. Literalmente, não. A menos que esteja um gelo na rua e precisem de evitar que os dedinhos deles fiquem roxos, não precisam. Meias são suficientes. Pijamas com pés são suficientes. O meu médico mandou-me basicamente queimar todos os sapatos rijos que tinha comprado, e que só usasse sapatos quando eles começassem realmente a andar em gravilha ou passeios quentes.
Que tipo de sapatos são os melhores quando eles começam finalmente a andar?
O ideal é procurar qualquer coisa que pareça uma meia mas que tenha alguma aderência na sola. Se não conseguirem dobrar a sola ao meio com dois dedos, são demasiado rígidos. Aprendi isso da pior forma depois de ver a Maya andar a passos de Frankenstein com aqueles horríveis Mary Jane. As solas macias e maleáveis são a única opção viável para que possam sentir verdadeiramente o chão.
Há algum problema em comprar sapatos de bebé em segunda mão?
Oh meu Deus, claro que não. E devem fazê-lo, por favor. Os bebés usam os sapatos durante cerca de um minuto e meio antes de os pés crescerem. Já comprei tantos pares de sapatos em lojas de artigos em segunda mão que tinham literalmente ainda o autocolante do tamanho na sola. Basta passarem uma toalhita para os limpar. Poupa-se imenso dinheiro e mantém-se todo esse cabedal e borracha fora do caixote do lixo.
Porque é que os sapatos de bebé caem dos pés com tanta facilidade?
Porque os bebés não têm calcanhares! Os pés deles são apenas pequenos triângulos gordinhos. Não há nada onde a parte de trás do sapato se possa prender. Além disso, passam 90 por cento do tempo que estão acordados a esfregar os pezinhos um no outro como pequenos grilos. Procurem sapatos com atacadores elásticos ou uma faixa elástica no tornozelo, caso contrário vão dar por vocês a voltar atrás no supermercado à procura de um sapato esquerdo perdido.
O que é que eu faço com todos os sapatos por usar que me ofereceram?
Vendam-nos. Dêem-nos. Atirem-nos para uma caixa e esqueçam-se deles durante quatro anos até terem de arrumar os armários. Não se sintam culpados por não os usarem. O desenvolvimento dos pés do vosso bebé é muito mais importante do que os sentimentos da tia Linda por causa de umas botas com pelinho.





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